Financiamento de periódicos institucionais o caso UFRGS


Ana Gabriela Clipes Ferreira

anaclipes@ufrgs.br

Membro da rede desde 2018

Bibliotecária da UFRGS

https://doi.org/10.6084/m9.figshare.15180801.v1



A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) possui sua estrutura de apoio a periódicos um pouco diferente de outras Instituições de Ensino Superior (IES), em que os portais de periódicos estão sob responsabilidade da Biblioteca Central. Os periódicos buscam apoio, além das suas respectivas Unidades, na Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq). Na Propesq existe o Programa de Apoio a Periódicos (PAEP) e para atuar no PAEP, a Comissão Assessora de Apoio a Edição de Periódicos, formada por servidores docentes e técnicos de diferentes áreas do conhecimento. Entre as atribuições da Comissão, está a elaboração do Edital PAEP, lançado anualmente e que oferece recursos para apoiar a edição dos periódicos.


O Edital PAEP tem edições anuais há diversos anos – a ponto de não ter acesso a documentação eletrônica para confirmar a data, mas é publicado pelo menos desde 2006, ano de criação do Portal de Periódicos Científicos da UFRGS – e mudou com o passar dos anos, de acordo com a realidade e necessidade das revistas da Instituição e dos recursos disponíveis. No início do Programa foi oferecido, por exemplo, postagem via correio e impressão. Atualmente, em 2021, é mantido o oferecimento de uma cota de bolsa por revista e a possibilidade de realizar a editoração/diagramação na Gráfica da UFRGS que, além desses dois serviços, ainda faz a revisão de português dos artigos. A contrapartida para a gráfica efetuar esses serviços sem gerar cobranças da Universidade é o oferecimento de bolsistas pelo Programa PAEP, que são orientados pelos servidores da gráfica. Uma parceria para manter possível a realização do serviço sem custos externos ao optar por empresas terceirizadas e possibilitando editoração e diagramação mais profissionalizada dos artigos.


Além dessas mudanças nos recursos, também houve mudança na submissão das propostas. Até 2019 eram realizadas via requerimento entregue por e-mail ou presencialmente. Ainda em 2019 adotamos uma piloto via Sistema Eletrônico de Informações (SEI) e, a partir de 2020, uso total da ferramenta. Essa alteração, embora com alguma resistência dos editores, possibilitou maior transparência no processo todo da proposta do edital e o acompanhamento, tudo dentro do mesmo número de processo, sem trocar de e-mails, formulários impressos, entre outros.

Quem pode participar do Edital PAEP: revistas editadas na UFRGS, exclusivamente, não sendo contempladas as revistas discentes ou em parceria com outras entidades. Além disso, o Editor-chefe precisa ser um servidor docente ou técnico do quadro permanente e em atividade na Universidade.


Aquelas revistas aptas a participar do Edital enviam suas propostas preenchidas e assinadas pelos Editor-chefe do periódico, via SEI, contendo informações básicas das revistas proponentes (título, editor responsável, ISSN, indexadores, Qualis, etc.) além de justificativa para o pedido dos recursos. O Editor pode solicitar 1 cota de bolsa, diagramação ou ambos, dependendo da modalidade da revista, previsto em edital. São 3 modalidades: I) revistas consolidadas, regulares e com publicação em dia; II) revistas existentes, mas com alguma dificuldade em se manter atualizada; e III) Revistas novas (pelo menos 2 anos de publicação). Para cada modalidade, existem alguns pré-requisitos, como publicação mínima de artigos por ano, padrões de normatização, comissão editorial e autoria exógenas quanto à instituição de vínculo. Caso a revista tenha sido contemplada com recursos no ano anterior, deve enviar também um formulário de utilização destes.

teclado cinza com 5 estrelas em relevo. Representa a qualidade
Fonte: Canva


Entre 2020 e 2021, além de todo o cenário da pandemia, os novos desafios impostos pelo isolamento social e a suspensão das atividades presenciais nas IES, ainda houve um novo desafio: o orçamento das Universidades. O edital, que era publicado no final do ano civil e letivo para início da vigência em março do ano seguinte, foi publicado apenas em junho de 2021. E com novas limitações: o serviço de impressão suspenso e limitação de 32 cotas de bolsa. Por outro lado, o recebimento de propostas aumentou cerca de 25% em relação aos anos anteriores. Aumentou o número de requerimentos, diminuiu o número de recursos oferecidos. Péssima conta.


Então, dito isso, como é feita a análise para o deferimento (ou não) da proposta e a concessão de recursos? Como é realizada a decisão de qual revista é aprovada ou não?

Bem, como praticamente tudo na academia, através da avaliação das propostas. Em outros anos todos os periódicos eram contemplados e obtinham os recursos concedidos, desde que sua proposta atendesse ao básico do Edital. Em 2021, com mais propostas solicitando cotas de bolsas do que as previstas em edital, revistas tiveram seus pedidos parcialmente atendidos ou rejeitados, observando rigorosamente item a item do edital durante a análise.


Os membros da comissão realizam então as avaliações das propostas com um formulário, dentro do mesmo processo no SEI, analisando as características de cada revista, a justificativa do pedido, se está de acordo com o edital. Um dos itens previstos no edital é o atendimento a sugestões dadas ao periódico no ano anterior. O que são essas sugestões? São apontamentos dos membros da comissão para melhorias no periódico com o objetivo de qualificação da publicação. Entre as sugestões mais comuns estão adequações na normatização como legenda bibliográfica, inserção do DOI nos PDFs dos artigos, busca de ampliação em bases de dados e diretórios, considerar publicação continuada, entre outras melhorias para qualificar a publicação na UFRGS e especialmente lá fora, aumentando a credibilidade, o acesso e a visibilidade da revista. Sempre respeitando as características da área do conhecimento e autonomia editorial de cada título. Em 2021, com os recursos diminuídos e aumento da procura, esse foi um item fundamental para considerar o deferimento ou não da proposta. As revistas apoiadas têm alguns compromissos com o PAEP, como adoção do logo e participação nos fóruns de editores.


A UFRGS é uma Universidade com diversos campi, separados entre si. Há diversidade de áreas entre os periódicos publicados na Universidade. Logo, cada periódico tem características da sua área do conhecimento e sua individualidade. E respeitar essas características é fundamental para não cair em velhos paradigmas da avaliação, como considerar o Qualis um fator determinante de qualidade. Afinal, um determinado estrato para uma área pode ser excelente, enquanto para outra nem tanto. E com o novo Qualis... bem, essa é uma outra discussão, longa e polêmica.


Nos últimos anos buscamos melhorar o processo do Edital PAEP, com maior transparência e acompanhamento dos interessados, que podem inclusive apresentar recurso se não concordarem com o resultado. Mas como atender um recurso, bem fundamentado, se não há mais cota de bolsa disponível? Então uma das possíveis soluções é uma reformulação geral do edital e do formulário de avaliação e isso terá que ser construído ao longo da vigência do presente edital, que é de 01/08/2021 a 31/07/2022. E se manter criativo e flexível, pois nem sempre o que foi pensado cabe no orçamento, literalmente falando, como ocorreu esse ano: tivemos conhecimento de cotas limitadas de bolsa às vésperas da publicação do edital. Não foi surpreendente o aumento de propostas, títulos que não tinham solicitado recursos nos anos anteriores surgiram: com tantos cortes na educação, Editores de todas as IFES buscam recursos alternativos para a manutenção do periódico.


O que aprendemos neste 2021:

Nunca é fácil avaliar um periódico, qualquer que seja a finalidade. O objetivo do PAEP é um programa que, de acordo com o edital visa, [...] apoiar e incentivar a edição e publicação de periódicos científicos na UFRGS [...]”. No momento que são realizados os cortes, que não podemos atender um pedido de uma determinada revista, a preocupação sobre a continuidade ou não da publicação é uma realidade. Pode parecer exagero, mas em equipes menores, uma pessoa a menos, como o bolsista, interfere no processo editorial no todo.


Atender somente aquelas revistas consideradas as melhores é mais do mesmo, é aplicar o efeito Mateus. Fugir de todos esses clichês de avaliação acadêmica e manter a qualidade do processo do edital é o maior desafio para 2022.







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